Supervisão e debates (11/06/2024 - 09/07/2024)
Avaliações:
- Participação nas supervisões, campos e debates. Elaboração
- Organização de evento ou Feira na útlima semana, entre 8-11 de julho
- Diário notas intensivas a ser feito e trazido toda Semana nas supervisões.
Instruções para a confecção do diário cartográfico de notas intensivas:
Para que serve um diário?
Um diário serve como arquivo de impressões (pensem na impressionista, o que tem nos girassóis na noite estrelado de Van Gogh, que é bem diferente da pintura realista do seu tempo, que tentava imitar a fotografia, a pintura impressionista de Van Gogh capta as intensidades, o dimensão movente de forças e afetos, que há na tela), uma cartografia provisória das relações de força que habitam o campo, das forças que nos atravessam e nos constituem, que vão desde forças de formações sociais (racismo, sexismo, localização geográfica, criminalidade, etc.), a composições cósmicas (nosso composto biológico, genética e circuitos de determinação física e química) até as mais facilmente tidas como simbólicas-discursivas (de produção de sentido, tudo o que circula, afetos e linguagem, etc. dinheiro é uma interface entre essa dimensão e a primeira, sexualidade abarca todas elas, e assim por diante).
Todos esses campos se interpenetram e se sobrepõem, a separação é meramente analítica, mas nos ajuda a compreender (no duplo sentido de entender e abarcar, conter dentro de certos contornos, que são os que dão nossa caixa de ferramentas, nosso arsenal analítico e epistemológico) e a aprimorar a intervenção (avaliando a intervenção simultaneamente, já que partimos de uma ideia de fazer-saber e não de saber antes para depois aplicar ou replicar o conhecimento)
A relevância do diário de campo consiste em ordenar e organizar o material da pesquisa, permitindo ao pesquisador impregnar-se pelos dados. Este instrumento é uma “fonte legítima de informação para compor a análise” (Minayo, 2012, p. 624). Nos valemos dos diários não como um registro estritamente individual e intimista, mas como uma ferramenta que visa dar visibilidade aos saberes e afetos que emergem nos encontros de campo. Essa prática permite refletir sobre a experiência dos corpos na complexa teia de relações e nos diversos coletivos que compõem a produção social e a de subjetivação, trazendo “a questão do afeto como modulador de sentido no pesquisar” (Kroef, Gavillon & Ramm, p. 476).
Já os diários cartográficos de notas intensivas respondem à necessidade de necessidade de acompanhar os fluxos da invenção da realidade, de habitar diferentes territórios, em contato direto e cultivando convivência com sujeitos em seus territórios existenciais.
Diferentemente da observação sistemática, que pressupõe o distanciamento entre sujeito-observador e campo ou objeto, e da observação participante – que parte da necessidade de imersão do pesquisador no campo, no contexto ou no grupo – os diários cartográficos de notas intensivas estão mais próximos da participação observante.
Visam compreender as relações e os significados, nos movimentos de diferenciação e singularização que emergem em cada contexto social, atentando também às semióticas a-significantes, aos encontros e relações não-humanas. Daí advém seu caráter experiencial, onde se registra trajetos, encontros, acontecimentos que se presencia, ou dos quais se participa, observações, sentimentos, afetos, as rarefações e umidades dos percursos e qualquer coisa o que vier à tona e convoque a atenção cartográfica. O diário pode ser feito como uma cartografia de narrativas, mesclando oralidade e escrita de si, na perspectiva foucaultiana do dizer verdadeiro, da coragem da verdade, e serve à reconstituição da composição das diversas paisagens psicossociais. Neste âmbito, Pozzana e Kastrup (2009) comentam que, a depender do grau de envolvimento do pesquisador, seu papel em campo vai de observador-participante a participante-observador.
O diário cartográfico pode ser entendido a partir da criação singular de determinada realidade, produzindo novas possibilidades de ver e dizer para os acontecimentos e afecções que se estabelecem na produção da vida, dos afetos e das práticas (Deleuze; Guattari, 1995). Na cartografia, a abertura para o encontro é fundamental para dar novo sentido aos acontecimentos e as afetações do cotidiano do trabalho e da vida. Já a caixa de afecções, tem como proposta dar suporte à construção do diário cartográfico. A ideia é de uma caixa de afetos, onde são colocados, objetos, músicas, textos, enfim, o que nos afeta no cotidiano e que produz algum sentido.
O fundamental é que as narrativas em forma de diário “revelam as implicações do pesquisador e realizam restituições insuportáveis à instituição científica. Falam sobre a vivência do campo cotidiana e mostram como, realmente, se faz a pesquisa" (Lourau, 1993, p.72).
Realizar um diário de notas intensivas não é falar de... mas falar com... falar a partir de...
Nas notas intensivas, o relato não tem mais a ver com saber sobre, pois se trata de saber com. Se colocar ao lado da experiência, talvez alguma coisa que não seja bem o que se esperava surgir ali. Faltam gaze, luvas e foco? Mas e aquele atendimento preventivo feito com a luz do celular em uma usuária que não poderia voltar em outro momento? Como é acompanhar a profissional ao fazer o curativo na criança que parece mais tranquila que a mãe? Como é ver aquela idosa que cuida de outro idoso cadeirante e de um neste em situação de sofrimento psíquico? Aquilo que talvez seus colegas e/ou os profissionais não tenham se atinado, não tenham percebido no calor e na correria do cotidiano.
O que experimentar com aqueles cheiros, encontros, sensações, o que eles te convidam a pensar? Entender que os encontros são um convite, saímos transformados de cada encontro, mesmo que nada se passe de visível, saímos transformados no tempo, ganhamos tempo nos encontros, ganhamos um pouco mais de tempo em cada encontro.
Tudo o que não invento é falso (Manoel Barros): O que é inventado em cada ida ao campo e nos encontros que se dão nestas visitas?
Quem está ao redor quer dizer por. Quer dizer “por quês”. Quer dizer de. Quer saber o quê.
Quais são as palavras que vestem um encontro, uma situação vivenciada no campo? Aquilo que talvez seja difícil de colocar em palavras, mas que – convidamos a vocês – vale o esforço. Aquilo que agita e perturba um certo estado de coisas, que inventa um problema.
“A ativação de uma atenção à espreita – flutuante, concentrada e aberta (...) entendida como um músculo que se exercita e sua abertura precisa sempre ser reativada, sem jamais estar garantida. (...) é a busca reiterada de um tônus atencional, que evita dois extremos: o relaxamento passivo e a rigidez controlada” (Kastrup, 2009, p. 48).
Usar sua presença e sua atenção para estranhar o que talvez apareça e pareça aos demais como natural.
Onde você se pergunta “por quê?” – por que isto é assim ou assado – substitua pela pergunta “Como?”. Como funciona? Como é que lhe parece?
Afinal, a cartografia acompanha as diversas movimentações, paradas e rupturas na possibilidade de habitar e trabalhar no entre: entre a prática da técnica da psicologia e as vicissitudes dos territórios (geográficos, imaginários, existenciais) junto aos quais intervimos; entre sensibilidade e organização.
O cartógrafo assume uma postura de interesse em posição inicial de estrangeiro, lança um olhar desnaturalizante, estrangeiro sobre as práticas e situações institucionais.
O cartógrafo é um errante desacomodado, movido pelo desejo de caminhar uma rota sem caminho mapeado, percurso feito pela prática, hodos-meta, na experimentação e na diversidade, nos limites e desafios de cada encontro e situação que nos é dada.
Quando elementos imprevistos insistem e ganham espaço, o pesquisador deve acatá-los, sem se manter aferrado ao problema inicialmente formulado. Este deve, então, ser redesenhado, fazendo valer a inversão, proposta pela cartografia, do sentido tradicional de método: um hodos-meta, isto é, o método da cartografia dá primado ao caminho da investigação, ao seu processo, e não às metas preestabelecidas (Passos; Kastrup, 2013, p. 395)
DELEUZE, G. & GUATTARI, F. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia Vol. 1. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995.
KASTRUP, V. O funcionamento da atenção no trabalho do cartógrafo. In: PASSOS, E.; KASTRUP, V.; ESCÓSSIA, L. (Orgs.). Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade (pp. 32-51). Porto Alegre: Sulina, 2009.
KROEF, R., GAVILLON, P., & RAMM, L. (2020). Diário de Campo e a Relação do(a) Pesquisador(a) com o Campo-Tema na Pesquisa-Intervenção. Estudos e Pesquisas em Psicologia, 20(2), 464-480. https://dx.doi.org/10.12957/epp.2020.52579
MINAYO, M. C. Análise qualitativa: teoria, passos e fidedignidade. Rio de Janeiro: Ciência & Saúde Coletiva, v. 17, n. 3. 2009.
MINAYO, M. C. Análise qualitativa: teoria, passos e fidedignidade. Rio de Janeiro: Ciência & Saúde Coletiva, v. 17, n. 3. 2012.
POZZANA, L. & KASTRUP, V. Cartografar é acompanhar processos. In: PASSOS, E.; KASTRUP, V.; ESCÓSSIA, L. (org.) Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2009.
Uma boa fonte de inspiração pode ser apreciada no Prólogo de Ana Maria Gonçalves:
GONÇALVES, A. M. Prólogo. In: Um defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2013.
https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/1154/o/Ana_Maria_Goncalves_-_Um_Defeito_de_Cor.pdf?1599239000