A leishmaniose permanece como uma doença negligenciada de elevada relevância em saúde pública, e a anfotericina B (AmB), embora eficaz, apresenta limitações relacionadas à toxicidade e à necessidade de
formulações mais seguras. Nesse contexto, biomateriais naturais têm sido investigados como matrizes para sistemas de liberação controlada. O presente estudo teve como objetivo desenvolver um hidrogel à base de goma de mandioca (HGM), incorporar AmB por absorção (HGMAmB) e avaliar suas propriedades físico-químicas, comportamento de intumescimento, perfil cinético de liberação, biocompatibilidade e
atividade anti-Leishmania in vitro. A caracterização macroscópica evidenciou aumento volumétrico e maior translucidez dos hidrogéis após hidratação, mantendo integridade estrutural. A análise por espectroscopia no infravermelho com transformada de Fourier (FTIR) revelou alterações no perfil espectral do sistema HGMAmB em comparação aos componentes isolados, com modificações na intensidade de bandas associadas a grupos hidroxila e na região de impressão digital, sugerindo interações físico-químicas entre a AmB e a matriz polimérica. Os ensaios de intumescimento em meio aquoso demonstraram comportamento superabsorvente para ambas as formulações, com aumento progressivo da absorção de água e valores máximos em torno de 90 minutos, sem diferença estatisticamente significativa entre HGM e HGMAmB. O ensaio de liberação in vitro evidenciou difusão gradual da AmB a partir do sistema HGMAmB ao longo de 48 h, com fase inicial de liberação mais rápida
seguida de redução da taxa e tendência a platô, comportamento desejável em sistemas de liberação controlada, favorecendo a manutenção de níveis terapêuticos locais. A avaliação biológica in vitro, por meio dos ensaios de MTT (3-(4,5-dimetiltiazol-2-il)-2,5-di-fenil brometo de tetrazólio) conduzido
com células fibroblásticas murinas da linhagem L929 e de toxicidade in vivo usando Artemia salina, demonstrou elevada citocompatibilidade do hidrogel e do sistema funcionalizado, com atenuação significativa dos efeitos citotóxicos observados para a AmB livre. Nos ensaios de atividade antileishmania frente a promastigotas de Leishmania infantum, o HGM isolado não apresentou efeito antiparasitário, enquanto o HGMAmB exibiu atividade com IC₅₀ superior ao da AmB livre, compatível com um perfil de
liberação controlada, mas capaz de promover inibição quase completa do crescimento parasitário em concentrações mais elevadas. Em conjunto, os resultados indicam que o hidrogel de goma de mandioca incorporado à anfotericina B constitui uma matriz polimérica promissora para aplicações
em sistemas de liberação controlada para leishmaniose, aliando biocompatibilidade e manutenção da atividade anti-Leishmania, embora estudos adicionais in vivo sejam necessários para aprofundar sua avaliação terapêutica.