No âmbito da Ciência Política, esta pesquisa analisa a relação entre a expansão da energia solar, a atuação do Estado e a cidadania material no município de São Gonçalo do Gurguéia (PI), no período de 2014 a 2024. O estudo tem como objeto empírico o Complexo Solar São Gonçalo, um dos maiores empreendimentos fotovoltaicos da América Latina, e parte do pressuposto de que a transição energética, embora fundamental para o desenvolvimento sustentável, não produz automaticamente melhorias nas condições de vida da população local. Busca-se compreender em que medida a implantação do empreendimento contribuiu para a redução da vulnerabilidade social e para a ampliação da cidadania material, considerando o papel do Estado na mediação desse processo. O referencial teórico articula as contribuições de Jessé Souza acerca da subcidadania, de Amartya Sen sobre desenvolvimento e capacidades, de Gunnar Myrdal sobre os processos desiguais de desenvolvimento e de Albert Hirschman acerca dos efeitos dos investimentos e seus encadeamentos econômicos e sociais. Metodologicamente, a pesquisa adota abordagem mista, combinando análise quantitativa de dados do Cadastro Único (CadÚnico), do Índice de Vulnerabilidade do Cadastro Único (IVCAD) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com análise qualitativa de documentos institucionais obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação. Os resultados indicam que, apesar dos elevados investimentos associados à produção de energia solar e da inserção do municipio em uma atividade estratégica para a transição energética brasileira, persistem elevados níveis de vulnerabilidade social, dependência de programas de transferência de renda e fragilidades relacionadas ao trabalho e à renda. A análise documental também revelou a existência de planejamento estatal voltado à promoção das energias renováveis, sem que fossem identificadas evidências equivalentes de políticas territorializadas capazes de converter os benefícios econômicos em ampliação da cidadania material. Conclui-se que a expansão da energia solar, isoladamente, não foi suficiente para promover transformações estruturais nas condições de vida da população local, reforçando a importância da atuação estatal por meio de políticas públicas territorializadas, mecanismos de inclusão produtiva e contrapartidas sociais capazes de converter crescimento econômico em desenvolvimento social efetivo.