As plantas alimentícias utilizadas por populações tradicionais são importantes componentes na manutenção e promoção da segurança alimentar em regiões vulneráveis. Atualmente, as mudanças ambientais e climáticas influenciam fortemente a disponibilidade, produção e sobrevivência dessas espécies em comunidades tradicionais. Tais efeitos estendem-se aos animais polinizadores, com um impacto notável e significativo sobre as populações de insetos. Objetivamos registrar o conhecimento e percepção dos moradores do Quilombo Custaneira/Tronco em Paquetá/PI, acerca dos impactos das mudanças ambientais nas espécies de plantas alimentíceas e nos insetos polinizadores, com integração dos dados bibliográficos nacionais e informações ambientais. De natureza qualiquantitativa, empregamos análises bibliográficas, lista livre, entrevistas semiestruturadas, dados geoespaciais e climáticos do MapBiomas e estações climáticas e pluviométricas do INMET e ANA. Quantitativamente utilizamos o Fator de Consenso de Informante, Importância Relativa e Índice de Saliência. Registraram-se o maior levantamento sobre as frutíferas alimentícias (557) e seus polinizadores (527). O polinizador mais frequente do país são abelhas de pequeno porte. Os polinizadores exóticos tendem a preferir plantas exóticas, enquanto os nativos apresentam maior versatilidade. As pesquisas etnobiológicas concentraram-se nas regiões Nordeste e Norte particularmente em comunidades rurais. Nossos preditores não foram capazes de separar grupos distintos quanto à diversidade de espécies, domínios fitogeográficos e tipo de comunidades. As plantas alimentícias são importantes agentes na segurança alimentar e econômica no quilombo, onde registramos 98 espécies, pertencentes a 85 gêneros e 43 famílias, sendo Solanaceae (9), Cucurbitaceae (8) e Fabaceae/Anacardiaceae (6) as mais diversas. A maioria é exótica (63,26%) cultivadas em quintais, hortas ou roças. Os frutos são os mais consumidos (55,26%), seguidos por folhas (20,39%), sementes (9,36%), raízes (5,92%), caules (4,61%) e resina/flores/pseudofrutos (0,65%). Os IR e IS destacaram Spondias tuberosa L. e Anacardium occidentale L., como espécies centrais. O alto FCI (0,8925) aponta forte homogeneidade no repertório alimentar, predominantemente com espécies cultivadas, enquanto as silvestres exibem maior diversidade de uso. Detectou-se distribuição igualitária do conhecimento no quilombo. As mudanças climáticas afetam a segurança alimentar, seja pela extinção local de espécies como o Jenipapo (Genipa americana L.) e Araçá (Psidium sp), como pela manutenção dos corpos hídricos. Não houve evidência estatística de alterações no regime chuvoso na série histórica de precipitação no município (p = 0,987; R2 = 0,0056), porém a década de 2010 apresenta uma queda considerável da média hídrica, o que explica a percepção dos moradores quanto à diminuição e rarefação das chuvas. A temperatura média anual apresentou tendência de elevação, com registros mais altos a partir de 2010, coincidindo com o aumento da frequência de queimadas em Paquetá. Conclui-se que as frutíferas são as plantas mais consumidas no Brasil e em Custaneira/Tronco, o polinizador mais frequente são abelhas de pequeno a médio porte, as mudanças climáticas impactam o quilombo com redução de água disponível, extinção de espécies locais e aumento da temperatura que potencializam a insegurança alimentar no quilombo.