Introdução: A infecção de sítio cirúrgico é a complicação pós- operatória mais comum, com significativa morbimortalidade e representa 17% das Infecções Relacionada à Assistência à Saúde, aumentando em até cinco vezes mais chances de readmissão em 30 dias e duas mais de óbito, em comparação com aqueles que não a desenvolvem. Objetivo geral: Analisar os fatores associados à infecção de sítio cirúrgico em prontuários de pacientes submetidos a procedimentos de alta complexidade, nas especialidades de cardiologia, neurologia e ortopedia. Método: Estudo transversal, analítico e retrospectivo, de abordagem quantitativa, realizado de acordo com as diretrizes do instrumento Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE), com coleta de dados realizada em novembro e dezembro em hospital de ensino do município de Teresina. Foram incluídos no estudo todos os prontuários de pacientes submetidos a procedimentos cirúrgicos nas especialidades de cardiologia, ortopedia e neurologia, que evoluíram com infecção de sítio cirúrgico durante o período compreendido entre 1o de janeiro de 2023 a 31 de janeiro de 2025. Para a coleta de dados, foi utilizado um questionário dividido em quatro domínios: variáveis sociodemográficas; clínicas; período perioperatório e infecção de sítio cirúrgico. Os dados foram organizados no Excel® versão 2010 para posteriormente serem exportados para o Statistical Package for the Social Science (SPSS) versão 22.0 e analisados. Para realizar as operações estatísticas descritivas das frequências relativa e absoluta, cálculo das medidas de tendência central e dispersão, Razão de Verossimilhança e o teste do qui-quadrado para verificar a associação entre os fatores de risco e a infecção de sítio cirúrgico. Associações estatísticas foram consideradas significativas quando p <0,05. Essa pesquisa obteve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Piauí com parecer no 7.791.093 e seguiu as recomendações da Lei no 14.874/2024. Resultados e discussão: Nos anos de estudo escolhidos, foram encontrados 2.208 procedimentos limpos relacionados às especialidades da pesquisa, com 160 notificações de infecção de sítio cirúrgico e 37 culturas positivas para algum microrganismo. Houve associação estatisticamente significativa entre uso de cateter venoso central e cultura positiva (OR = 5,42; IC95%: 2,21–13,3; p < 0,001). A duração da cirurgia superior a duas horas apresentou risco aumentado para infecção de sítio cirúrgico (OR = 2,58; p = 0,012), assim como a internação pré-operatória maior que cinco dias (OR = 2,24; p = 0,031) dobrou o risco de isolamento bacteriano (OR 2,24), pela colonização hospitalar prévia. As cirurgias cardíacas estiveram significativamente associadas à cultura positiva (p = 0,022), com OR de 2,45 (IC95%: 1,12–5,34) tendo a maior correlação com Pseudomonas aeruginosa e Staphylococcus epidermidis, associados ao uso de cateter venoso central. Na Ortopedia tem- se a presença de Staphylococcus aureus e Enterococcus faecalis correlacionados à longa permanência hospitalar e uso de implantes. Na Neurologia tem destaque para Klebsiella e Enterobacter. O perfil microbiológico revela um perfil de resistência preocupante de Gram- negativos a cefalosporinas de terceira geração, fluoroquinolonas e, em alguns casos, carbapenêmicos e a identificação de resistência a meropenem e ertapenem em isolados de Klebsiella pneumoniae sugere a possível circulação de cepas produtoras de carbapenemases. Entre os Gram-positivos, observou-se resistência significativa a aminoglicosídeos e cefalosporinas, compatível com perfis de Staphylococcus resistentes, frequentemente descritos em unidades hospitalares de alta complexidade. Conclusão: Os achados evidenciam o caráter multifatorial da infecção de sítio cirúrgico e reforçam a necessidade de estratégias preventivas direcionadas, baseadas na estratificação de risco, vigilância microbiológica contínua e qualificação das práticas assistenciais.