As leishmanioses estão entre as doenças tropicais negligenciadas mais comuns e representam um grupo importante de enfermidades transmitidas por vetores, causadas por protozoários do gênero Leishmania. Em humanos, essas infecções estão amplamente distribuídas e são responsáveis por considerável morbidade e mortalidade em 98 países. Com exceção da Índia, os antimoniais pentavalentes constituem a principal terapia de primeira linha contra o complexo de doenças leishmaniais. Em casos de resistência, recorrem-se a fármacos como miltefosina, anfotericina B e pentamidina. No entanto, esses tratamentos apresentam limitações importantes, como toxicidade elevada, eficácia limitada, alto custo e dificuldade de administração, o que ressalta a necessidade de alternativas terapêuticas mais eficazes, seguras e acessíveis. Nesse contexto, o reposicionamento de fármacos constitui uma estratégia promissora para a identificação de alternativas terapêuticas, uma vez que possibilita a investigação de medicamentos previamente aprovados para outras indicações clínicas. Dessa forma, o objetivo desse trabalho foi investigar o potencial antileishmania dos fármacos alopurinol, hidroxicloroquina e ivermectina, isoladamente e em associações de diferentes proporções, por meio de estudos in vitro, avaliando sua atividade sobre formas promastigotas de Leishmania amazonensis e Leishmania infantum, bem como avaliar a citotoxicidade sobre macrófagos murinos e eritrócitos de carneiro e investigar parâmetros de ativação de macrófagos. Todos os fármacos apresentaram atividade antileishmania, com aproximadamente 100% de inibição do crescimento parasitário nas concentrações finais testadas. Destacaram-se o alopurinol frente a L. infantum e a ivermectina frente a L. amazonensis, ambos com CI50 de 2,10 μg/mL. Entre as associações, [Alo + Hid] (4:1) apresentou maior atividade frente a L. amazonensis, com CI50 de 0,98 μg/mL e elevado índice de seletividade (301,9). Os ensaios in vitro de citotoxicidade em macrófagos murinos e de hemólise demonstraram baixa toxicidade dos fármacos e de suas associações nas concentrações avaliadas. Em relação aos parâmetros de ativação de macrófagos, observou-se aumento na produção de óxido nítrico e na capacidade fagocítica, sem alteração significativa do volume lisossomal. Esses resultados indicam que os fármacos e suas associações, além de apresentarem atividade direta sobre o parasito, podem interferir em mecanismos relacionados à resposta funcional dos macrófagos. De modo geral, os achados demonstram o potencial antileishmania do alopurinol, da hidroxicloroquina e da ivermectina, especialmente quando empregados em associação, com destaque para [Alo + Hid] (4:1) frente a L. amazonensis. Assim, esses resultados reforçam o potencial do reposicionamento desses fármacos como estratégia para a identificação de novas alternativas terapêuticas para a leishmaniose, fornecendo subsídios para estudos futuros que avaliem a eficácia e a segurança dessas associações em modelos in vivo.