A comunidade surda produz modos singulares de expressão, língua e existência, especialmente por meio de práticas artísticas e corporais que atravessam o corpo, a visualidade e a língua de sinais. Em um contexto em que a inclusão muitas vezes se limita ao discurso, essas produções revelam formas de resistência, criação e afirmação identitária que desafiam perspectivas ouvintistas e deslocam fronteiras históricas de exclusão. As narrativas encenadas em Libras, tanto no teatro quanto nas novelas, constituem territórios de força política e estética, capazes de tornar visíveis experiências, afetos e modos de viver que foram por muito tempo silenciados. É nesse entrelaçamento entre educação, arte, cultura, língua e direitos humanos que esta pesquisa se inscreve. Assim, esta pesquisa de mestrado objetiva analisar as potencialidades artísticas corporais da comunidade surda, destacando suas expressões políticas de resistência, inclusão e de educação em direitos humanos. Nos objetivos específicos, busca-se mapear as artes corporais do teatro e novelas da comunidade surda de Teresina-PI, destacando suas potencialidades; perceber as expressões políticas de resistência presentes nessas produções; identificar os modos de inclusão da pessoa surda mediados pelas artes corporais; perceber pistas de uma educação em direitos humanos a partir das performances artístico-corporais dessa comunidade. Em nossa abordagem metodológica, faz-se uso da cartografia de Deleuze e Guattari (1995, 2010) e Kastrup (2009), envolvendo 7 (sete) participantes, sendo 1 (um) intérprete e 6 (seis) surdos. No processo de criação dos dados, destacaram-se as narrativas visuais, as performances em Libras, as cenas das novelas produzidas pelos participantes, bem como seus relatos de experiência por meio de entrevista com atores e professores surdos, tomados aqui como dispositivos para pensar processos de inclusão/exclusão e modos de existir que emergem no cotidiano desses sujeitos. Os resultados evidenciam que as práticas artístico-corporais constituem importantes espaços de fortalecimento da cultura surda, de afirmação da Libras e de resistência às formas históricas de exclusão. As experiências compartilhadas pelos participantes revelam marcas de violência institucional, barreiras comunicacionais e representações ouvintistas que ainda atravessam suas trajetórias, mas também demonstram a potência da arte como espaço de criação, pertencimento e produção de novas formas de existência. As novelas e o teatro em Libras configuram-se como práticas estéticas, culturais e políticas que ampliam a visibilidade da comunidade surda, fortalecem identidades coletivas e promovem reflexões sobre inclusão e direitos humanos. Conclui-se que essas produções artísticas transcendem o campo da expressão cultural, constituindo-se como dispositivos de resistência, educação em direitos humanos e transformação social, capazes de tensionar modelos normativos de inclusão e afirmar a diferença como potência política e cultural.