A presente pesquisa tem como objetivo geral investigar a emergência do discurso sobre a pessoa com Transtorno do Espectro Autista, a partir do aporte teórico de Michel Foucault. O que se pretende é delinear a constituição histórica do discurso sobre o autismo à luz das ferramentas foucaultianas de arqueologia e genealogia. A inquietação inicial surge da afirmação de Leo Kanner de que o autismo “sempre esteve aí”, o que suscita a questão sobre como eram compreendidos, identificados ou classificados sujeitos hoje considerados autistas antes da consolidação do diagnóstico psiquiátrico na década de 1940. Para enfrentar esse problema, recorre-se ao pensamento foucaultiano, que permite investigar não a origem de um fenômeno, mas as condições históricas que tornam possível sua formulação como objeto de saber e de intervenção. Assim como Foucault analisou a emergência do discurso sobre a loucura desde o final do século XV, a pesquisa propõe compreender quais práticas, saberes e relações de poder possibilitaram o surgimento do autismo como entidade nosográfica no século XX. Esse percurso envolve a revisão do papel da medicina psiquiátrica, da institucionalização moderna e da progressiva normalização das diferenças comportamentais. A formalização do autismo por Kanner, em 1943, é entendida como um momento chave, mas não isolado, dentro dessa rede discursiva. Por fim, o estudo sugere estratégias presentes em obras de autores autistas, nos levando a entender que através das autobiografias autistas são possíveis formas de insubmissão dentro da rede de saberes e poderes constituídos por uma emergência discursiva sobre o autismo. Esta pesquisa é de cunho bibliográfico e se baseia filosoficamente na obra de Michel Foucault, com importantes contribuições de autores autistas como Josenei Medeiros, Naoki Higashida e Temple Grandin.