Durante muito tempo, o capitalismo se manteve escondido na fachada da economia, como se fosse algo exclusivo dela, mas esse sistema não vive somente às custas do trabalho assalariado e da produção que visa o lucro: há camadas ocultas que o sustentam. Estamos cada vez mais diante de um modelo devorador, uma ordem social mais ampla que depende da exploração de características não econômicas para funcionar, como o trabalho de cuidado, a reprodução social, a natureza e a política. Ao necessitar dessas condições e, ao mesmo tempo, explorá-las, o capitalismo acaba sendo como um canibal que come partes importantes de si mesmo: imaginemos o Ouroboros, que devora a própria cauda, simbolizando esse ciclo de autodestruição – a ideia de “capitalismo canibal” usada por Fraser é central para a análise, pois denuncia como o sistema consome as bases sociais e naturais que garantem sua existência. A partir da perspectiva de Nancy Fraser (1947-), especialmente nas obras Capitalismo Canibal: como nosso sistema está devorando a nossa democracia, o cuidado e o planeta e o que podemos fazer a respeito disso (2024), Capitalismo em Debate: uma Conversa na Teoria Crítica (2020) e Feminismo para os 99%: um Manifesto (2019), esta pesquisa pretende contribuir para o debate sobre as condições estruturais que impedem a emancipação das mulheres sob o capitalismo, evidenciando a necessidade de um feminismo anticapitalista e interseccional. Segundo Fraser, o capitalismo contemporâneo, notadamente em sua fase neoliberal e financeirizada, reestrutura as formas de opressão de gênero, ao mesmo tempo em que se apropria de discursos igualitários. O elemento-chave da pesquisa está no conceito de reprodução social e como ela é constantemente explorada pelo capitalismo, o que nos permite constatar que a violência contra as mulheres está entranhada nas relações capitalistas. Assim, somente um feminismo anticapitalista, comprometido com a justiça social, racial, ambiental e de gênero, pode efetivamente contribuir para a emancipação das mulheres.