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Banca de QUALIFICAÇÃO: GIZELLY DE CASTRO LOPES

Uma banca de QUALIFICAÇÃO de MESTRADO foi cadastrada pelo programa.
DISCENTE: GIZELLY DE CASTRO LOPES
DATA: 14/12/2022
HORA: 15:30
LOCAL: Online/Remoto - Google Meet
TÍTULO: Entre as linhas da vida e a arte da pesca: Cartografia de escrevivência das mulheres marisqueiras
PALAVRAS-CHAVES: Marisqueiras; Pesca artesanal; Luta e Resistência; Processos de subjetivação.
PÁGINAS: 50
GRANDE ÁREA: Ciências Humanas
ÁREA: Psicologia
RESUMO:

Introdução: O presente estudo trata de uma cartografia de processos de subjetivação e escrevivências de mulheres marisqueiras de Ilha Grande do Piauí, que usam artefatos e linhas da pesca e da vida para manutenção do seu modo de existir. As comunidades tradicionais de pesca e mariscagem, historicamente, tiveram e têm seu modo de vida e existência negligenciados pelo Estado e ameaçados pelos grandes empreendimentos econômicos que invadem e exploram seus territórios e suas águas, impossibilitando o livre acesso as áreas tradicionais e interferindo na dinâmica das vidas humanas e não humanas. Nos últimos anos, com o avanço global do capitalismo, intensificaram os conflitos ambientais e as políticas de morte contra as comunidades tradicionais, corroborados pela flexibilização das leis ambientais e trabalhistas (Félix-Silva, Oliveira & Bezerra, 2021). Diante desse cenário, historicamente, existe um movimento de luta e resistência contra as políticas de desenvolvimento em detrimento da vida, cultura e trabalho das comunidades tradicionais pesqueiras. A frente dessas lutas, destacam-se as mulheres que criaram, em 2005, a Articulação Nacional das Pescadoras Artesanais (ANP) e impulsionaram, ao lado dos homens, o surgimento do Movimento de Pescadores e Pescadores Artesanais (MPP), em 2010. São as mulheres que protagonizam a participação junto ao Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP), há mais de 50 anos (Ribeiro, 2021). Assim, elas assumem a liderança nesses movimentos sociais pesqueiros contra as diferentes formas de violências enfrentadas por pescadoras e pescadores artesanais e em defesa dos territórios tradicionais pesqueiros, além de lutar em prol dos direitos trabalhistas e previdenciários, reconhecimento das doenças ocupacionais e da valorização das mulheres na pesca artesanal (Félix-Silva, Gomes & Araújo, 2021). Com base nos estudos feministas e conceitos de Michel Foucault, Gilles Deleuze e outros autores e autoras, Margareth Rago (2013) apresenta as concepções de feminismos, escrita de si e subjetividade. Com base nessas concepções, discutiremos a interface entre escrita de si (Rago, 2013) e escrevivências (Evaristo, 2020), para acompanhar e descrever a luta e a resistência de mulheres marisqueiras, pescadoras artesanais, por entender que a escrita-escrevivências dessas mulheres das águas também emerge na coletividade e não está expressa apenas no campo literário, sendo, portanto, matéria de expressão dos processos de subjetivação que se inscrevem nas linhas que entrelaçam arte e pesca artesanal, território das águas e corpo-território, gestos, encontros e acontecimentos. Desta forma, consideremos os processos de subjetivação (Guattari & Rolnik, 2013) marcados por esse campo social e as múltiplas possibilidades de ser mulher e criar novos mundos, marcada por lógicas de sujeição que coexistem com modos de resistência. A partir da problematização dessa realidade, temos, neste estudo, como Objetivos: Geral: Cartografar processos de subjetivação e escrevivências de mulheres marisqueiras. E específicos: a) acompanhar as múltiplas linhas da vida das mulheres das águas a partir da sua relação com a arte, a vida e o trabalho artesanal da pesca; b) mapear as narrativas das marisqueiras; e c) analisar processos de subjetivação, sujeição e resistência das catadoras de marisco. Método: Trata-se de uma cartografia de escrevivências que nos permite acompanhar os movimentos das mulheres marisqueiras no território e os processos de subjetivação articulados à arte e ao trabalho extrativista da pesca artesanal, reconhecendo e analisando os atravessamentos de gênero, raça e classe. Optamos pela cartografia (Rolnik, 2011) por permitir mapear a dinâmica do território e múltiplos atravessamentos que compõem o campo social. Esta cartografia foi realizada com 17 marisqueiras da Ilha Grande do Piauí, a partir de seis encontros virtuais pela plataforma Google Meet e cinco encontros presenciais, entre 14 de maio de 2021 e 26 de outubro de 2022, perfazendo um total de 11 encontros, para compor esses encontros, levamos em consideração a concepção de um bom encontro de Spinoza (2018), no sentido de impulsionar o desejo e aumentar a vontade de potência e de ação do corpo. Para acompanhar os processos de subjetivação e mapear as escrevivências das mulheres marisqueiras, por meio da oralidade, foram utilizados, nos encontros remotos, objetos relacionais da arte, ora confeccionados pelas marisqueiras, ora selecionados pelos pesquisadores a partir de temas geradores extraídos do território tradicional pesqueiro. No primeiro encontro remoto foi utilizado um texto de Eliete Paraguassu, marisqueira e quilombola de Ilha da Maré, Bahia, cuja leitura possibilitou a percepção acerca de como é diversa a participação das mulheres nas comunidades tradicionais pesqueiras. O encontro seguinte foi mediado pelas linhas que compõem a arte de fazer crochê da cartógrafa e as linhas que dão formas aos materiais da pesca artesanal e outras tantas artes da vida das marisqueiras. No terceiro encontro, utilizamos uma fotografia de Antônio Luiz M. C. Costa, cuja legenda é “Desigualdade” e um registro fotográfico de Vladimir Félix com a imagem de uma marisqueira de Ilha Grande do Piauí cujas legendas atribuídas pelas participantes da pesquisa remetem ao corpo-território das mulheres marisqueiras, pescadoras artesanais. No quarto encontro, foram utilizados dos objetos relacionais da arte: uma foto divulgação de uma mulher indígena, retirada da página da AVAZZ/O Mundo em Ação, e um verso do poeta Mario Quintana que serviram para pensar transformações possíveis, bem como fazer a problematização dos avanços desenfreados dos empreendimentos nas comunidades tradicionais e das ameaças às vidas. No quinto e sexto encontros, realizamos círculos de cultura sobre os subtemas, depressão e uso de drogas, que emergiram da discussão dos temas geradores nos encontros anteriores. Nos encontros presenciais, participamos do Encontro Estadual da Articulação Nacional das Pescadoras Artesanais, no qual foram elencados as dificuldades e os desafios das comunidades tradicionais pesqueiras no litoral do Piauí, vivenciamos a experiência da cata do marisco com as marisqueiras, além disso compartilhamos rodas de conversas com estudantes do curso de medicina e do Programa de Pós-Graduação em psicologia da Universidade Federal do Delta do Parnaíba, e experimentamos oficina com outras profissionais da Residência em Saúde do Campo, vinculadas ao programa da Fiocruz que fizeram uma imersão no território das águas; tanto na roda de conversa como na oficina promovemos, juntamente com as marisqueiras, discussões sobre seu modo de vida, saúde e processo do trabalho artesanal. As narrativas das mulheres foram gravadas e transcritas a partir dos encontros remotos e dos diários cartográficos dos encontros presenciais. Para a análise dos processos de subjetivação que emergiram das linhas de pesca e da vida a partir das escrevivências cartografadas, nesses encontros com as marisqueiras, recorremos às concepções de subjetividade e processos de subjetivação da esquizonálise e a conceitos de autoras e autores que pensam a produção de subjetividade colonial-capitalística na contemporaneidade. Os Resultados preliminares mostram: Na Ilha Grande do Piauí, as marisqueiras compõem e assumem cargo de direção na Associação de Catadores de Marisco da Ilha Grande, proporcionando discussões sobre a mariscagem, compartilham com a comunidade sobre a vida nas águas, cuidam de si e dos outros, além de lutar pela preservação do meio ambiente em torno da reprodução dos bens comuns: vida, educação, culinária, agricultura familiar, trabalho artesanal da pesca e território das águas (Federici, 2020). Além do extrativismo da pesca artesanal, as marisqueiras exercem outras atividades complementares como extrativismo vegetal, artesanato e a agricultura familiar. As escrevivências narradas pelas marisqueiras apontam a percepção de si no âmbito da pesca, nas tarefas domésticas, no cuidado com membros da família e com a comunidade. Identificamos a multiplicidade do corpo-território das marisqueiras, sobrecarga de trabalho ao desenvolver várias funções ao mesmo tempo durante mariscagem, além de estarem presentes na confecção dos materiais para pesca, no manuseio, no preparo e na venda dos seus produtos. Percebemos determinação e coragem no enfrentamento dos desafios no território das águas, que vão desde as esporadas de animais aquáticos às infecções ginecológicas devido à exposição à umidade. Por outro lado, demostram preocupação com atenção a saúde das mulheres das águas, uma vez que os serviços de saúde são escassos, distantes e burocráticos. Identificamos a percepção das marisqueiras sobre a destruição gerada pelo setor econômico ao colocar em risco a vida nos ecossistemas e vida não apenas dos povos e comunidades tradicionais, mas sobrevivência de toda a humanidade. Sinalizam sua participação nos movimentos contra as agressões a comunidade e aos descasos do poder público na oferta de serviço básico. Com os avanços do desenvolvimento predatório surgiram novas problemáticas nas comunidades tradicionais pesqueiras como aumento da violência, gerando com consequência sofrimento e adoecimento psíquicos. Apontam a confiabilidade na união entre elas para manutenção da vida, minimização dos conflitos e no fortalecimento da comunidade, e apesar dos desafios que comunidades tradicionais pesqueiros estão vulneráveis, afirmam que são felizes no que fazem e produzem, pois não precisam de muito luxo, mas são ricas por compartilharem o comum.


MEMBROS DA BANCA:
Presidente - 2231565 - ANTONIO VLADIMIR FELIX DA SILVA
Interno - 1402780 - GUILHERME AUGUSTO SOUZA PRADO
Externo à Instituição - MICHELE DE FREITAS FARIA DE VASCONCELOS - UFS
Notícia cadastrada em: 30/11/2022 11:52
SIGAA | Superintendência de Tecnologia da Informação - STI/UFPI - (86) 3215-1124 | © UFRN | sigjb03.ufpi.br.sigaa 20/04/2024 14:37