A literatura tem documentado e analisado as manifestações dos movimentos pró e antigênero destacando que eles não se expressam apenas em debates públicos, mas também em arenas institucionais. No Brasil, a Câmara dos Deputados é espaço de disputas dessas pautas. Embora existam estudos que abordam a presença de movimentos pró e antigênero em parlamentos de diferentes países, ainda há lacunas importantes sobre suas especificidades no contexto brasileiro. Pouco se sabe, por exemplo, sobre o perfil sociodemográfico e partidário dos parlamentares que impulsionam projetos de lei (PLs) pró-gênero e antigênero, suas agendas, narrativas, bem como sobre a forma como parlamentares jovens se posicionam. Esta pesquisa busca preencher parte dessa lacuna examinando a 56ª Legislatura da Câmara dos Deputados, ocorrida entre 2019 e 2022, a partir da seguinte pergunta: de que forma as agendas pró e antigênero se materializaram nas propostas legislativas de parlamentares na Câmara dos Deputados do Brasil, e quais foram as características distintivas dos seus perfis sociopolíticos e de suas manifestações narrativas? Objetiva-se, assim, analisar a manifestação dessas agendas pelos deputados e deputadas brasileiros. Metodologicamente, a pesquisa combina abordagens quantitativas e qualitativas. Primeiramente, os PLs foram coletados e categorizados como pró-gênero e antigênero utilizando como base a literatura sobre o tema; posteriormente, traçou-se o perfil de quem protocolou PLs pró e antigênero, a partir de variáveis sociodemográficas; em seguida, os PLs foram analisados a partir de seus conteúdos, traçando paralelos com os achados de perfil e a literatura. Na dimensão quantitativa, o perfil dos proponentes foi traçado a partir dos dados sociodemográficos e ideológicos dos 613 parlamentares que tiveram posse confirmada entre 2019 e 2022 por meio de regressão logística. Na dimensão qualitativa, foi realizada análise documental com técnica de análise de conteúdo de 334 PLs do período que continham a palavra gênero nos seus conteúdos. Os resultados revelam: parlamentares de direita (OR=16,25), com menor idade (OR=0.966) e deputadas (OR=3,65) têm maior probabilidade de propor PLs antigênero; do outro lado, deputados de direita possuem 98,5% menos chance de protocolar projetos pró-gênero, seguidos dos deputados de esquerda, com 93,3% e das deputadas de direita, com 88% menos chance, quando comparados com deputadas de esquerda. A partir deste perfil, analisou-se a atividade parlamentar via PLs: enquanto a atuação pró-gênero das deputadas concentrou-se em demandas mais reformistas e com reduzida inclusão de pautas LGBTQIAPN+; a atuação antigênero priorizou o bloqueio de direitos da comunidade LGBTQIAPN+; o mesmo padrão ocorre entre jovens parlamentares. Esses resultados contribuem com a literatura ao apontar que deputadas apresentam maior probabilidade de protocolar projetos de lei antigênero, contestando parte da literatura que as compreende apenas como legitimadoras secundárias dessas pautas, e não como protagonistas. Ademais, os resultados corroboram com a literatura que rejeita a associação entre juventude e progressismo. Por fim, a tese propõe as categorias movimentos pró-gênero parlamentares e movimentos antigênero parlamentares para descrever padrões institucionais de atuação, nos quais as agendas pró-gênero tendem a se moderar e as agendas antigênero a se radicalizar no processo de institucionalização legislativa.