A presente tese insere-se no campo de estudos da violência contra mulheres, mais notadamente
na perspectiva do feminicídio tentado. Estabelece um diálogo entre as bases teóricas que
circundam as categorias "mulheres", "violência contra mulheres", "feminicídio" e "rota crítica"
— ou "(des)caminhos", conceito adotado para se referir a essas trajetórias — e as narrativas de
vida de mulheres sobre-viventes das tentativas de feminicídio no Piauí. O escopo central
consiste em analisar como se configuram os (des)caminhos percorridos por essas mulheres na
busca por superação e reparação da violência no estado. Para tanto, adota como aporte teórico
o materialismo histórico-dialético na perspectiva decolonial, entendendo ser necessário analisar
a realidade para além de sua aparência fenomênica, apreendendo-a em sua totalidade e,
simultaneamente, questionando as hierarquias de poder, saberes e culturas impostas pelo
colonialismo. Como ferramenta teórico-metodológica, utiliza a interseccionalidade,
considerando imprescindível articular de forma indissociável gênero, raça/etnia, classe social e
outros eixos de opressão. A investigação justifica-se pela relevância de aprofundar, no âmbito
estadual, os estudos sobre rotas críticas vivenciadas por mulheres sobre-viventes do
feminicídio, a fim de apreender se as redes de apoio, a comunidade e os serviços que compõem
a Rede de Enfrentamento à Violência contra Mulheres atuam de maneira efetiva e articulada na
reparação, proteção e cuidado dessas mulheres no estado. O estudo é de caráter exploratório e
natureza qualitativa, utilizando o método Narrativas de Vida para conferir maior liberdade às
participantes no relato de suas vivências, percepções e experiências. Também são empregadas
fontes secundárias provenientes de pesquisas bibliográficas e documentais, além de dados
institucionais, como registros e boletins da Secretaria de Segurança Pública do Piauí (SSP/PI),
estatísticas oficiais do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), levantamentos do
Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE/PI) e pesquisas de opinião do DataSenado. Na
pesquisa de campo, cinco mulheres de diferentes municípios piauienses foram convidadas a
participar de entrevistas narrativas não estruturadas, com foco na compreensão aprofundada das
dinâmicas do feminicídio tentado, dos esforços da revivência e das rotas críticas na luta pela
superação e reparação da violência. Espera-se que a materialização deste estudo suscite
reflexões e debates na comunidade acadêmico-científica, na sociedade civil e nos órgãos
públicos responsáveis pela formulação, execução e implementação de políticas de proteção às
mulheres. Destaca-se, sobretudo, a necessidade de capacitação da Rede de Enfrentamento, da
transversalidade de gênero e da criação de políticas específicas de cuidado às sobre-viventes do
feminicídio, mulheres que, mesmo resistindo à violência extrema, enfrentam a falta de meios
para superar o trauma e seguir adiante. É preciso que gestores em todas as esferas de poder
ampliem o olhar sobre o feminicídio para além do consumado, reconhecendo a relevância de
atuar também no âmbito do tentado, por meio de políticas mais humanizadas, protetivas,
preventivas e reparatórias.