O presente trabalho investiga como os discursos dos moradores da Comunidade Manga Iús,
situada em Batalha (PI), constroem sentidos de pertencimento étnico, territorial e ambiental
em um contexto marcado por conflito fundiário, invisibilidade institucional e disputas
simbólicas por reconhecimento. A motivação científica decorre da necessidade de
compreender como identidades coletivas se estruturam quando há tensionamento entre
documentos oficiais contestatórios e saberes orais, especialmente em territórios tradicionais
onde memória, ambiente e ancestralidade se entrelaçam. A pesquisa busca, assim, contribuir
para o campo dos estudos socioambientais, oferecendo subsídios teóricos e empíricos para
políticas públicas de reconhecimento e regularização territorial. A partir de uma abordagem
qualitativa articulam-se História Oral e Análise Crítica do Discurso, com ênfase na prática social
do discurso em Fairclough, para compreender como narrativas comunitárias legitimam modos
de vida, vínculos socioterritoriais e racionalidades ambientais não hegemônicas. O corpus
empírico é composto por oito entrevistas semiestruturadas, observação participante, análise
documental e mapas afetivos elaborados com os moradores. A sistematização das narrativas
levou à identificação de cinco eixos temáticos: História Pessoal e Familiar; Reconhecimento
Quilombola; Memórias de Antepassados; Antigas Formas de Vida e Trabalho; e Conexão
Territorial e Unidade Comunitária. O referencial teórico articula memória coletiva
(Halbwachs), ressemantização do quilombo (Arruti), Modo de ser quilombola (Antônio Bispo),
territorialidade (Haesbaert) e identidade étnica (D’Adesky). Esse arcabouço possibilita
compreender a identidade quilombola como processo relacional, situado e ambientalmente
ancorado. As narrativas evidenciam que o pertencimento ultrapassa a dimensão genealógica
e se funda em práticas sociais, vínculos afetivos, espiritualidade, trabalho comunitário e no
manejo sustentável do cerrado, configurando um discurso ambiental próprio, enraizado em
saberes tradicionais e na experiência cotidiana com o bioma. Conclui-se que os discursos da
Manga Iús operam como formas de resistência, agência socioambiental e afirmação
identitária em uma disputa contínua por legitimidade, território e justiça ambiental.