CSHNB - HISTÓRIA - Presencial - Picos

 

Curso  Nível  Graduação

CAMPUS SENADOR HELVIDIO NUNES DE BARROS - CSHNB

NUPEDOCH

NÚCLEO DE PESQUISA EM DOCUMENTAÇÃO E HISTÓRIA - NUPEDOCH 

A criação no ano de 2004 do Programa de Pós-Graduação em História do Brasil da Universidade Federal do Piauí representou não só a expansão do ensino de stricto sensu na UFPI e diretamente ligado aos dois cursos de História ofertado por esta mesma instituição, mas, sobretudo, o resultado concreto de uma sensível mudança na produção do conhecimento histórico acerca da formação da sociedade Piauiense. 

A quantidade de dissertações produzidas nestes 10 anos de programa nos leva a concluir que sabemos mais sobre a nosso passado, da nossa constituição enquanto povo e sociedade. Mesmo assim, ainda temos muito que crescer e expandir tanto em termos de qualificação docente, quanto a nível de produção de conhecimento histórico. 

É neste ambiente que surge o Núcleo de Pesquisa e Documentação em História – NUPEDOCH - como uma proposta possível de alavancar o conhecimento acerca da formação e constituição da sociedade Piauiense, congregando, para isso, um número considerável de docentes/pesquisadores e discentes diretamente vinculado à Universidade Federal do Piauí, além de docentes/pesquisadores de outras IES. 

O NUPEDOCH tem igual interesse pelo manuseio, preservação e disponibilização para um público mais amplo das pesquisas e das fontes documentais utilizadas pelo grupo de pesquisadores. Por certo, a preocupação com o desgaste das fontes documentais produzidas no Piauí entre os séculos XVIII e XIX tem levado pesquisadores a concentrarem esforços no sentido de preservar tal acervo através da sua conversão para o formato digital. 

A proposta do NUPEDOCH se insere nesse movimento de discussão já existente no âmbito da Universidade Federal do Piauí, especialmente nos programas de pós-graduação voltados para a investigação histórica e que fazem amplo manuseio de fontes manuscritas e impressas. Outrossim, pretendemos através da institucionalização do Núcleo de pesquisa catalogar e digitalizar um conjunto de documentos produzidos nas mais diferentes esferas do poder: judiciário, parlamentar, cartorial, policial, medico-sanitário e eclesiástica.

O NUPEDOCH tem como principal meta desenvolver projetos de pesquisas de caráter acadêmico-científico voltado para a compreensão da realidade Brasileira, em geral, e piauiense, em nível específico. Nesse sentido, o Núcleo de Pesquisa e Documentação em História terá como horizonte de pesquisa a formação da sociedade Brasileira dos séculos XVIII e XIX e como eixos temáticos das suas pesquisas os seguintes tópicos: História da Saúde e da Doença (Piauí/Maranhão), Instituições Políticas, Militares e Jurídicas do Piauí no oitocentos (Piauí/Maranhão), Escravidão e horizontes da liberdade: negros e índios no Piauí e Maranhão e relações familiares, as identidades de gênero e as práticas discursivas católicas.

De fato, tanto no Piauí quanto no Maranhão as discussões sobre as práticas de cura e os profissionais de medicina nos séculos XVIII e XIX ainda são escassas. Tal evidência justifica a importância da criação de um Núcleo de Pesquisa e a necessidade de analisar as artes e ofícios de curar no século XVIII e XIX desenvolvidas por indivíduos versados em outras práticas curativas, notadamente de herança indígena, africana e mestiça e sua legitimidade perante a sociedade piauiense e maranhense, bem como compreender como uma elite médica no Piauí e no Maranhão se empenhou na produção de um saber original sobre as doenças brasileiras no século XIX, ao mesmo tempo em que se impuseram como instrumento da política imperial de saúde pública. Além disso, como esses médicos e indivíduos versados em outras artes de cura foram capazes de pensar inovações médico-científicas e contribuíram, assim, para sancionar novas tecnologias em diagnóstico e terapêutica, bem como novos conceitos e teorias estritamente voltados para o conhecimento das patologias brasileiras.

O objetivo é despertar um interesse maior pelas temáticas relacionadas à saúde e a doença nos séculos XVIII e XIX no Maranhão e Piauí, além de levantar a documentação capaz de nos trazer informações relevantes sobre temas transversais, tais como: saberes médicos, epidemias, saúde e doença de escravos, indígenas e mestiços, instituições de saúde, biografias de médicos, curandeiros, cirurgiões, barbeiros, boticários, entendidos. Além disso, a criação de um acervo digital possibilitará novas pesquisas sobre as práticas de cura e instituições médicas no Maranhão e Piauí e facilitará a construção de novos objetos históricos relacionados ao tema.

Sabemos que o trabalho com as fontes é elemento essencial da formação do pesquisador/historiador. Quanto mais cedo os pesquisadores tiverem contato com os arquivos locais e as possibilidades de utilização dos documentos, maiores são as chances de realização de pesquisas maduras no campo da História e de definição de suas temáticas e campos de atuação. Além disso, o tema saúde e doença de escravos e mestiços é ainda bastante recente na historiografia brasileira e tem sido foco de grande interesse entre os historiadores nacionais e internacionais.  

Nossa segunda linha de pesquisa  - Instituições Políticas, Militares e Jurídicas do Piauí no oitocentos -, tem por objetivo desenvolver e divulgar a pesquisa docente e acadêmica no âmbito da História do Piauí do século XIX, tomando como cerne a perspectiva da História Política, Social e Cultural, privilegiando as diversas discussões desde os estudos sobre a literatura, a economia, a imprensa, a jurisprudência, a intelectualidade, as instituições militares, os movimentos e lutas sociais, a escravidão e resistência, os homens livres pobres e a organização do mercado de trabalho, bem como as diversas manifestações culturais que se fizeram presentes nos espaços de sociabilidade do Piauí no século XIX. 

A linha tem como objetivo o estudo das ações empreendidas por diferentes categorias sociais em luta pela conquista de direitos em determinados períodos históricos do Piauí ao longo dos oitocentos. Também privilegia buscar a compreensão dos problemas inerentes a perspectiva história do Piauí do século XIX, tal como os progressos, os ciclos de economia, as relações de trabalho entre outras alternâncias que a região enfrentou no curso de formação de seu espaço físico e social. Estas discussões desdobram-se também para compreender e estudar a Instituições Políticas, Militares, Jurídicas do Piauí no oitocentos com ênfase na cultura política, memória e na compreensão das práticas de mandonismo exercido pelos diversos grupos políticos que nas primeiras décadas do século XIX ganharam força e na segunda metade do século XIX tornara-se hegemônica, bem como a formação do Estado Nacional e das redes de poder articulados com a Corte e a Província.

Estudar a escravidão e as relações de subalternidade no Piauí do século XVIII significa adentrar a um universo de pesquisa ainda pouco explorado. Muito embora existam interessantes trabalhos sobre a temática da escravidão - destacadamente os de Luiz Mott, Miridan Brito, Tanya Brandão e Solimar de Oliveira – pouco sabemos sobre as estratégias utilizadas por senhores das fazendas frente à sua escravaria, o que cediam e o que os tornavam intolerantes, que tipo de expectativas crioulos e mestiços, livres e/ou escravos e índios da região tinham frente à liberdade, ao avanço do poder da Coroa portuguesa e à escravidão, assim como temos um reduzido conhecimento das possíveis solidariedades e associações entre negros e índios da região.

Essas e tantas outras questões sobre os séculos XVIII e XIX, tanto para o Piauí como para o Maranhão, carecem ainda de maiores informações. A escassez de fontes e a omissão de determinados sujeitos na história, já é algo bastante conhecido entre os historiadores. Assim, para compreender cativos, índios e mestiços durante o século XVIII é preciso examinar um tipo de documentação que retrata sentimentos senhoriais, ao tempo em que se mesclam – na mesma fonte – com tensões, acordos e circunstâncias aparentemente fora da ordem social. É nesse momento, que as percepções de eclesiásticos, letrados e autoridades administrativas sobre valores, sentimentos dão margem para a compreensão do outro e do mundo em que habitavam.

Nesses mundos historicamente distantes no tempo e no espaço é que também merece igual atenção as relações familiares, as identidades de gênero e as práticas discursivas da igreja católica. Sabemos que o século XIX foi marcado por um processo de redefinição dos limites entre público e privado no Brasil. A criação do Estado Nacional com a Independência trouxe uma tentativa de fortalecimento do poder público definindo melhor os limites e as funções de Estado. De um lado, o poder privado ainda continuava muito forte, principalmente em áreas rurais mais afastadas das sedes do poder central, com uniões entre famílias ricas através do casamento para o domínio do poder uma determinada região. Do outro, o Estado brasileiro se aliava a classes liberais e modificava a organização da máquina administrativa com intuito de diminuir o poder privado, que assim como na América portuguesa, confundia-se com poder familiar.

No Piauí, algumas famílias, nos séculos XVII e XVIII, descendentes diretos ou colaterais da nobreza ibérica, se instalaram no território do sertão do país em busca da realização do sonho de construir uma vida tranquila e fazer fortuna. Ao chegarem aqui foram ocupando as poucas vilas existentes e foram casando entre si e com membros de outras famílias que chegaram um pouco depois. Logo, as famílias Coelho Rodrigues, Castelo Branco, Pereira Ferraz, Vieira de Carvalho, Sousa Martins, Araújo Costa, Burlamaqui, e outras foram estreitando os laços conjugais e formando uma elite econômica e política. Estabelecendo, assim, no século XIX, uma política de domínio familiar perfeitamente sólida e delineada. 

Dessa forma, durante o século XIX, o casamento e os outros sacramentos, que também diziam respeito a vida social, eram normatizados pela Igreja Católica, que criou regras de como seus fiéis e os clérigos deveriam perceber as relações conjugais e de gênero, a família e condenou tudo que desviasse do padrão da norma católica.  Nesse sentido, compreende-se gênero como uma categoria que através de uma perspectiva relacional é construída culturalmente. Sendo esta a primeira forma de significar as relações de poder na sociedade. Por fim, entender a Igreja católica no Período Imperial é um empenho que necessita de uma análise no contexto mais amplo. Pois a Igreja além de religião oficial do Estado, era ao lado do sistema escravista, um dos grandes suportes das estruturas política, social, econômica, jurídica, do universo cultural e moral da sociedade brasileira do século XIX. 


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