A fragmentação do habitat impulsionada pela urbanização remodela a distribuição das espécies, mas os mecanismos que conectam a estrutura da paisagem à biodiversidade são dependentes da escala e ainda permanecem pouco compreendidos. Embora a ocorrência de espécies seja amplamente utilizada como indicador da qualidade do habitat, ainda há pouca atenção ao papel da estrutura da paisagem, em múltiplas escalas espaciais, na determinação dessa ocorrência. A carência de informação se acentua ainda mais quando viéses amostrais advindos do erro de detecção das espécies em campo é considerado. Neste estudo, avaliamos os efeitos da estrutura do habitat sobre os padrões de ocorrência de borboletas-estaladeiras do gênero Hamadryas em diferentes escalas espaciais, dentro de uma paisagem urbana no nordeste do Brasil. As espécies foram amostradas ao longo de um gradiente de urbanização, que variou desde áreas inseridas em um fragmento florestal urbano até pequenas manchas verdes isoladas na matriz. Nossos resultados revelam que as borboletas do gênero Hamadryas, em especial H. februa e H. feronia, respondem à densidade de borda e cobertura vegetal principalmente através de variações na atividade, por meio da probabilidade de detecção. Por outro lado, a probabilidade de ocupação mostrou um padrão relativamente consistente entre as espécies e as escalas espaciais avaliadas. A dissociação entre ocupação e detectabilidade sugere que as espécies de Hamadryas apresentam ampla tolerância a ambientes urbanos heterogêneos e perturbados, enquanto seus níveis de atividade e o uso de microhabitats são fortemente modulados por atributos estruturais locais, especialmente a cobertura vegetal e a disponibilidade de habitats de borda. Avaliar padrões de atividade em múltiplas escalas por meio da probabilidade de detecção pode, portanto, fornecer pistas ecológicas fundamentais sobre as relações espécie–habitat que permaneceriam ocultas caso apenas a ocorrência das espécies fosse considerada.