As bacias hidrográficas são sistemas integrados que conectam ambientes terrestres e aquáticos, desempenhando papel fundamental na manutenção da biodiversidade e no funcionamento dos ecossistemas. A Teoria do Rio Contínuo prevê gradientes longitudinais nos rios, mas, em regiões semiáridas como a bacia do Rio Parnaíba, a elevada variabilidade hidrológica e a fragmentação natural podem gerar padrões distintos dos previstos. Nesse contexto, destacam-se os moluscos límnicos, organismos fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas aquáticos, mas que apresentam capacidade limitada de dispersão e forte dependência das condições locais. Apesar de sua relevância ecológica, o conhecimento sobre a diversidade desses organismos ainda é escasso, evidenciando uma lacuna raukieriana. Diante desse cenário, a abordagem funcional surge como uma ferramenta robusta para superar as limitações das métricas taxonômicas tradicionais, permitindo avaliar como os atributos funcionais das espécies respondem às variações ambientais. Este estudo buscou investigar como variam os índices de diversidade funcional — riqueza, dispersão e uniformidade — ao longo dos gradientes longitudinais dos rios da bacia do Parnaíba, bem como identificar quais variáveis ambientais atuam como principais determinantes desses padrões. As coletas foram realizadas nas estações secas de 2022 e 2023, em oito rios, com três pontos por rio, acompanhadas do registro de variáveis físico-químicas da água. A análise funcional foi realizada com base em uma matriz de atributos ecológicos, morfológicos e fisiológicos, extraídos da literatura. As métricas funcionais foram calculadas com base em dendrogramas gerados pela distância de Gower, considerando a riqueza funcional (FRic), a dispersão funcional (FDis) e a uniformidade funcional (FEve). Modelos lineares mistos foram utilizados para avaliar os efeitos da distância da foz dos rios e das variáveis ambientais sobre os índices funcionais. Foram registrados 5.938 indivíduos, pertencentes a 22 espécies de moluscos (14 gastrópodes e 8 bivalves). A FRic foi maior próximo às fozes e menor a montante. A FDis e a FEve não apresentaram variação significativa entre as distâncias da foz. Dentre as variáveis ambientais, a condutividade foi o principal fator que influenciou positivamente a FRic, indicando que áreas com maior condutividade abrigam comunidades funcionalmente mais diversas. Já a FEve foi negativamente influenciada pela concentração de oxigênio dissolvido, indicando menor uniformidade funcional em ambientes mais oxigenados.