Esta dissertação analisa a Educação Escolar Indígena no Brasil a partir das tensões entre os marcos legais que a instituem como direito diferenciado e as experiências concretas vivenciadas por povos indígenas em seus territórios, tomando como recorte empírico comunidades indígenas do estado do Piauí. Parte-se da compreensão de que essa política pública se insere em um campo mais amplo de disputas entre projetos societários distintos: de um lado, uma racionalidade desenvolvimentista, orientada por lógicas administrativas, econômicas e homogeneizadoras; de outro, projetos de vida indígenas ancorados em territorialidades próprias, cosmologias específicas e formas autônomas de produção e transmissão de conhecimento. Embora juridicamente assegurada, a Educação Escolar Indígena se materializa de forma desigual, atravessada por ambiguidades normativas, disputas ideológicas e limites estruturais que variam conforme os contextos regionais. A pesquisa adota abordagem qualitativa, de natureza descritiva e interpretativa, articulando análise documental de dispositivos legais e diretrizes oficiais, entrevistas com lideranças indígenas e atores envolvidos na implementação da política educacional, além de observação do que é vivenciado em termos de educação nos territórios investigados. Tal estratégia permite examinar em que medida a política se concretiza para além do plano normativo, evidenciando os desafios enfrentados pelas comunidades. Ao situar o Piauí no cenário nacional, o estudo problematiza os efeitos de um prolongado processo de invisibilização histórica dos povos indígenas no estado e analisa a emergência recente de movimentos de reafirmação identitária e reivindicação por direitos, entre os quais se destaca o acesso à educação escolar específica. Argumenta-se que a Educação Escolar Indígena constitui território político de disputa simbólica e material, no qual se confrontam diferentes concepções de desenvolvimento, conhecimento, território e futuro, revelando que sua consolidação depende do reconhecimento das territorialidades indígenas como fundamentos legítimos de organização social e educativa.