Esta dissertação investiga os vínculos entre corrupção institucional e crime organizado no Piauí, tomando como objeto central a trajetória e a rede articulada pelo coronel reformado da Polícia Militar José Viriato Correia Lima, que entre as décadas de 1980 e 1990 operou um esquema criminoso de amplo alcance a partir de dentro do aparato estatal. O objetivo geral é compreender os liames entre corrupção institucional e milícia no Piauí e o processo de miliciarização da polícia piauiense, tendo como eixo empírico o grupo liderado por Correia Lima. A pesquisa é qualitativa e exploratória, combinando análise documental, pesquisa hemerográfica e trabalho de campo com quatro interlocutores identificados por pseudônimos: Aziz, jornalista com acesso privilegiado às elites políticas e ao acervo do período; Protegido, jornalista com memória interna das dinâmicas de silêncio editorial; Bankai, policial civil cujo relato revela a transmissão oral da memória institucional da corporação; e Rita Lee, membro de família que manteve vínculos de proximidade com Correia Lima, oferecendo acesso à dimensão doméstica e afetiva da figura estudada. As fontes documentais incluem informes da ABIN, documentos do SNI, processos judiciais e registros hemerográficos. O referencial teórico articula a sociologia da violência de Benjamin, Weber, Arendt, Bourdieu e Foucault com a literatura brasileira sobre milícias e segurança pública — Zaluar, Misse, Manso, Feltran — e com os conceitos durkheimianos de normal, patológico e função social, tratando a rede miliciana como sintoma e função de uma formação social historicamente situada. Os resultados demonstram que o grupo liderado por Correia Lima não operava como bando externo ao Estado, mas como rede miliciana formada em seu interior. O coronel e seus associados atuavam fardados, em serviço, controlando não territórios periféricos, mas a própria polícia — seu alto comando, sua cadeia de informações e seus mecanismos de silêncio. A rede articulava pistolagem, agiotagem, desmanche de veículos e contrabando de armas, com circulação interestadual e proteção política que alcançava o governo do estado e o Judiciário. Sua especificidade revela uma forma de milícia com maior imbricamento estatal do que as modalidades estudadas no eixo Rio-São Paulo — mais sofisticada em sua capacidade multiestatal e, por isso, mais difícil de nomear e enfrentar. A dissertação conclui que a miliciarização do aparato policial piauiense não foi anomalia ou desvio pontual, mas expressão de continuidades históricas entre autoritarismo, mandonismo local, patrimonialismo e criminalização do Estado. A redemocratização formal não foi suficiente para romper tais continuidades. Compreender o caso Correia Lima é condição necessária para enfrentar o legado ainda vivo desse processo — porque a sobremesa foi bala, mas a mesa já estava posta muito antes.