Esta dissertação investiga como os discursos de gênero operam como dispositivos de poder na Educação Infantil
brasileira, em articulação com as estruturas históricas e epistemológicas da colonialidade. A pesquisa assume
abordagem qualitativa, de natureza bibliográfica e documental, articulada a aproximações com a
perspectiva cartográfica como postura metodológica de acompanhamento de processos, tensões
e deslocamentos discursivos. O corpus analítico é composto por produções acadêmicas, documentos curriculares
oficiais, em especial a Resolução CNE/CEB n.º 5/2009, que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a
Educação Infantil (DCNEI), e as três versões da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), além de marcos
normativos que atravessam o campo da Educação Infantil. O estudo mobiliza como principais referenciais
teóricos as contribuições de Michel Foucault (2000; 2008) acerca de discurso, poder e dispositivo; Aníbal
Quijano (2005) sobre colonialidade do poder; Walter Mignolo (2003; 2005) sobre pensamento liminar e
colonialidade do saber; Joan Scott (1995) sobre gênero como categoria analítica; Judith Butler (2000; 2019)
sobre performatividade e subversão de identidade; Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí (2021) sobre a invenção das categorias
de gênero pelo projeto ocidental; María Lugones (2014; 2020) sobre colonialidade e gênero; e Catherine Walsh
(2005; 2008) sobre interculturalidade crítica e pedagogia decolonial. A dissertação problematiza a constituição
histórica dos discursos de gênero como verdades naturalizadas, evidenciando sua vinculação a uma lógica
moderna-colonial, binária, cisheteronormativa e racializada. Demonstra-se que tais discursos não se configuram
como fenômenos espontâneos, mas como produções históricas atravessadas por relações de poder que seguem
organizando corpos, subjetividades e possibilidades de existência desde os primeiros anos de vida.