A presente pesquisa tem como objetivo investigar as formas de produção e transmissão de saberes desenvolvidas por mulheres negras no Piauí, considerando tanto os espaços escolares quanto os espaços comunitários nos quais práticas educativas são construídas e compartilhadas. Parte-se da compreensão de que a educação não se restringe à escola formal, sendo também produzida nas relações familiares, comunitárias, culturais e religiosas, por meio da oralidade, da memória, da ancestralidade e das experiências coletivas. Nesse sentido, busca-se compreender como mulheres negras atuam como educadoras e produtoras de conhecimento, reconhecendo suas trajetórias e práticas como formas legítimas de produção e circulação de saberes. Para Freire (1985), a educação está relacionada à prática humana e à possibilidade de leitura e transformação do mundo, enquanto Brandão (2013) contribui para compreendê-la como uma prática que ultrapassa os limites da instituição escolar e se manifesta em diferentes espaços e relações sociais. Nessa mesma direção, hooks (2013), ao propor uma educação como prática de liberdade, chama atenção para a necessidade de processos educativos capazes de reconhecer os sujeitos, suas experiências e suas diferentes formas de existir e produzir conhecimento. Gadotti (2012), por sua vez, permite pensar a educação como um processo dinâmico, complexo e criativo, construído nas relações humanas e em constante diálogo com os contextos sociais. A partir dessa compreensão ampliada, busca-se compreender como mulheres negras atuam como educadoras e produtoras de conhecimento, reconhecendo suas trajetórias e práticas como formas legítimas de produção e circulação de saberes.
A pesquisa dialoga com perspectivas da afrocentricidade (Asante, 2009; Noguera, 2010), das epistemologias negras e da crítica à colonialidade do saber (Mignolo, 2003; Carneiro, 2005), bem como com estudos sobre educação e relações étnico-raciais (Gomes, 2017), feminismo negro (Gonzalez, 2008; Bairros, 1995) e pedagogia da ancestralidade (Pimenta; Passos; Silva, 2022). Também serão
consideradas as contribuições de Antônio Bispo dos Santos (2015) para pensar os modos de produção de conhecimento e organização da vida em comunidades quilombolas. A partir desse referencial, pretende-se questionar perspectivas que historicamente centralizaram modelos eurocêntricos de produção do conhecimento e invisibilizaram práticas educativas produzidas por populações negras, especialmente por mulheres negras.
Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, desenvolvida por meio de pesquisa bibliográfica, documental e de campo. O trabalho de campo será realizado mediante entrevistas semiestruturadas com mulheres negras atuantes em diferentes contextos educacionais no Piauí, contemplando professoras da rede pública de ensino e mulheres quilombolas reconhecidas em suas comunidades por práticas de cuidado, orientação, transmissão cultural e formação coletiva. A escolha das interlocutoras busca contemplar diferentes trajetórias e espaços de atuação, permitindo observar como os saberes são construídos, compartilhados e transmitidos dentro e fora da escola. As entrevistas serão conduzidas a partir de roteiros flexíveis, possibilitando que as participantes apresentem suas experiências, memórias, trajetórias formativas e compreensões sobre educação e transmissão de saberes.
Os dados produzidos no campo serão analisados por meio da Análise de Conteúdo, conforme Bardin (2011), buscando identificar categorias, recorrências, tensões e sentidos presentes nas narrativas das interlocutoras. O estudo também realizará um levantamento do estado da arte sobre mulheres negras educadoras, educação afrocentrada, pedagogias decoloniais e práticas educativas comunitárias, contribuindo para situar a pesquisa no campo das discussões sobre educação e relações étnico-raciais. Espera-se, com isso, ampliar a compreensão sobre os processos educativos produzidos por mulheres negras no Piauí, evidenciando práticas de transmissão de saberes que ultrapassam os limites da educação escolar e valorizando espaços, experiências e epistemologias historicamente marginalizados.