A adolescência é uma fase complexa, onde ocorrem diversos processos de crescimento e desenvolvimento biopsicossocial. Nela, os adolescentes desenvolvem exposição à vulnerabilidade individual, dado o interesse de conhecer coisas novas, juntamente com o despertar do interesse na sexualidade. Através do fácil acesso a aparelhos digitais e à internet, o adolescente adquire autonomia, identidade, prestígio pelas aplicações tecnológicas e estabelece relações interpessoais, possibilitando acesso a mídias sexualmente explícitas (MSE). Nesse sentido, o presente trabalho teve como objetivo adaptar e aplicar um instrumento para avaliação do consumo de mídias sexuais e suas associações com práticas sexuais de risco ao HIV/Aids entre adolescentes, analisando padrões de consumo, saberes e comportamentos sexuais. Trata-se de um estudo multimétodos, com abordagem quantitativa, integrado a um macroprojeto financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Foi desenvolvido em duas etapas: uma adaptação e validação do conteúdo do questionário por um comitê de juízes especialistas, com verificação semântica por pré-teste com adolescentes, segundo o modelo de Pasquali; e a aplicação do instrumento adaptado para investigar conhecimentos, práticas e comportamentos de risco de adolescentes consumidores de MSE. A coleta de dados ocorreu no período de outubro a dezembro de 2025. A etapa inicial de adaptação e validação de conteúdo do instrumento de pesquisa foi conduzida por um comitê de oito juízes especialistas, com elevada titulação acadêmica. O processo resultou em um questionário metodologicamente robusto, com excelentes Índices de Validade de Conteúdo (CVI > 0,88), garantindo a adequação da ferramenta ao público adolescente. A caracterização da amostra (n=294) revelou um perfil de adolescentes com faixa etária entre 15-19 anos, inseridos em um contexto de vulnerabilidade socioeconômica. O consumo de Mídias Sexualmente Explícitas foi relatado por 15,6% dos participantes, com iniciação majoritariamente precoce e maior acesso por sites gratuitos. A análise de regressão identificou que tanto o sexo masculino quanto a orientação homossexual (ORaj = 5,79), estiveram associados a uma maior chance de consumo. Metade dos adolescentes relatou já ter tido relação sexual, porém com uso inconsistente de preservativos e baixa percepção de risco para o HIV (3,8%). No entanto, identificou-se um raso conhecimento sobre ISTs, com lacunas importantes, como o desconhecimento sobre PrEP/PEP e baixa adesão à testagem. Quanto à análise de associação com o comportamento de risco, não foi encontrada relação direta com o consumo de MSE, mas foi possível identificar o uso do TikTok como única fonte de informação digital significativamente associada a um maior risco (p=0,0377). Dessa forma, o estudo concluiu que a vulnerabilidade dos adolescentes não é uma relação direta entre o consumo de MSE e comportamentos de risco, mas de uma interação entre a exposição precoce, baixa percepção de risco e a construção de saberes por fontes informais. As MSE atuam como uma educação sexual paralela, moldando roteiros e enfraquecendo normas de prevenção. A associação do risco do consumo geral de MSE com o TikTok reforça a necessidade de estratégias em saúde pública e educação, focadas nas particularidades do ecossistema digital contemporâneo.