O “Mito do Dado” é uma crítica feita pelo filósofo estadunidense Wilfrid Sellars (1912-1989) à noção de conhecimento imediato presente no cânone da epistemologia tradicional, segundo o qual, o dado (given) constitui o fundamento do conhecimento com valor epistêmico intrínseco que é apreendido diretamente pelo sujeito. Para esse filósofo, não existe algo como o conhecimento imediato através dos dados puros da experiência, tais como as manchas de cores, luzes da visão ou as ondas sonoras provenientes da audição. O "Mito do Dado", desenvolvido no texto Empirismo e Filosofia da Mente, consiste em supor que algo pode possuir um valor epistêmico mesmo sem depender de nada e independentemente do modo como venha a ser adquirido pelo sujeito. Ainda que este conhecimento seja aparentemente imediato e supostamente dado de forma pura, na verdade contém alguma forma de mediação, oriunda da linguagem e dos nossos esquemas conceituais. Sem esses instrumentos de classificação e comunicação, os dados dos sentidos seriam desprovidos de qualquer valor epistêmico. O objetivo desse trabalho é fazer uma análise do conjunto de argumentos que sustentam o “Mito do Dado” para inferir sobre a sua pertinência ou não. Com isso, busca-se, demonstrar a partir de Sellars que os dados dos sentidos não podem servir de substrato para a construção de uma teoria do conhecimento dotada das características de infalibilidade e racionalidade completamente objetivas, isolada dos esquemas conceituais e dos vieses da humanidade. Partindo do pressuposto de que a rejeição sellarsiana aos dados dos sentidos é correta, discutiremos as implicações pragmatistas que a crítica de Sellars possui, especialmente no que concerne à rejeição ao fundacionismo, aos diversos tipos de dualidade, e a consequente adoção de um holismo intelectual que rejeita todo tipo de pretensão à universalidade ou fundamento último das coisas.