O feminicídio constitui uma das expressões mais extremas da violência de gênero e
evidencia a permanência de relações históricas de poder estruturadas pelo patriarcado,
pelo racismo e por outras formas de desigualdade social. Para além de sua dimensão
criminal, o feminicídio configura-se como um acontecimento comunicacional, cujas
narrativas são produzidas, disputadas e ressignificadas pelos meios de comunicação e
pelas plataformas digitais. Nesse contexto, esta pesquisa tem como objeto as narrativas
midiáticas sobre o feminicídio de Janaína Bezerra, estudante da Universidade Federal do
Piauí assassinada em janeiro de 2023. O objetivo consiste em analisar como essas
narrativas constroem sentidos acerca da violência de gênero, da vítima e do agressor,
articulando disputas narrativas, desinformação e marcadores interseccionais. O estudo
fundamenta-se na Hermenêutica de Profundidade, de John B. Thompson, compreendendo
as notícias como formas simbólicas produzidas em contextos sócio-históricos específicos
e atravessadas por relações de poder. Como ferramenta metodológica complementar,
utiliza-se a Roleta Interseccional, proposta por Fernanda Carrera, permitindo identificar
como gênero, raça, classe e outros marcadores sociais são mobilizados nas narrativas
midiáticas. O referencial teórico dialoga ainda com as contribuições de Pierre Bourdieu
sobre poder simbólico, de Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez, Bell Hooks, Grada Kilomba e
Kimberlé Crenshaw acerca dos feminismos negros e da interseccionalidade, bem como
com as discussões de Ana Regina Rêgo sobre desinformação. Trata-se de uma pesquisa
qualitativa, de natureza interpretativa, cujo corpus é constituído pelas matérias publicadas
no Portal Cidade Verde e pelas publicações do perfil TV Cidade Verde, na plataforma
Instagram, entre 28 de janeiro de 2023 e 28 de janeiro de 2026. A análise será
desenvolvida por meio da contextualização sócio-histórica do caso, da análise formal das
narrativas e da interpretação crítica das formas simbólicas, considerando a construção
discursiva da vítima e do agressor, a presença ou ausência da dimensão racial e os
processos de desinformação que atravessam a cobertura do caso. Espera-se contribuir
para o campo da Comunicação ao compreender o feminicídio como um acontecimento
comunicacional e ao evidenciar como as narrativas midiáticas participam da produção de
sentidos sobre a violência contra as mulheres, colaborando para o fortalecimento de
práticas jornalísticas comprometidas com os direitos humanos, a equidade de gênero e o
enfrentamento ao feminicídio.