O presente trabalho analisa a construção das representações lésbicas nos filmes exibidos na sessão “Quarta Sapatão”, faixa de programação do Canal Brasil dedicada exclusivamente a produções nacionais com temática lésbica. Partindo do pressuposto de que a invisibilidade lésbica no audiovisual brasileiro é produto de estruturas históricas de poder que determinaram as condições de visibilidade de identidades dissidentes. A pesquisa investiga de que forma a referida sessão opera comodispositivo de construção de subjetividades e em que medida representa uma ruptura, ou continuidade, com os padrões históricos de figuração da homossexualidade feminina no cinema do país. O referencial teórico articula as contribuições dos estudos de gênero e da teoria feminista, a partir de autoras como Teresa de Lauretis, Joan Scott, Judith Butler e Adrienne Rich, em diálogo com a teoria do cinema e os estudos de representação, mobilizando os conceitos de male gaze, female gaze e olhar oposicional. O conceito de dispositivo da sexualidade em Michel Foucault fundamenta a análise histórica dos mecanismos de controle e apagamento, enquanto as formulações de Roger Chartier, Stuart Hall, Muniz Sodré e Serge Moscovici sustentam a discussão sobre a representação como prática cultural e politicamente disputada. Metodologicamente, a investigação qualitativa adota a Hermenêutica em Profundidade de John B. Thompson, estruturada em três movimentos complementares: a análise sócio-histórica do contexto de produção e circulação; a análise formal das linguagens cinematográficas e modos de construção das personagens; e a interpretação/reinterpretação das obras. O corpus empírico constitui-se pelos filmes exibidos na mostra que estão disponíveis para acesso. Os resultados apontam para uma compreensão aprofundada dos mecanismos contemporâneos de produção e circulação de imagens lésbicas no audiovisual brasileiro, contribuindo para o debate sobre representação, visibilidade e subjetividade no campo da comunicação.