O cinema regionalista ganhou visibilidade transnacional, contrapondo-se à homogeneização das demais indústrias cinematográficas. Na contemporaneidade, esse modelo de produção audiovisual passa a incorporar novas configurações estéticas, denominadas Cinema Neorregionalista. No contexto do cinema neorregionalista urbano nordestino, este trabalho analisa Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho, e Piedade (2019), de Cláudio Assis. Ambientadas em Pernambuco, as obras articulam, a partir de diferentes projetos estéticos, discussões relacionadas ao avanço da especulação imobiliária e à mercantilização do espaço urbano. Diante disso, coloca-se o seguinte problema de pesquisa: de que modo esses filmes constroem esteticamente o espaço urbano como campo de conflito simbólico da memória cultural frente aos processos contemporâneos de mercantilização? O objetivo geral da pesquisa consiste em compreender como o cinema neorregionalista urbano pernambucano elabora estética e simbolicamente o espaço e a memória cultural em Aquarius e Piedade, considerando a cidade como lugar de tensão entre permanência, ruína e mercantilização. Trata-se de uma pesquisa qualitativa e interpretativa, de natureza teórico-analítica, voltada à análise fílmica das duas obras. A abordagem metodológica privilegia a interpretação das formas de construção do espaço urbano, da memória cultural e da experiência sensível no cinema neorregionalista contemporâneo. Como referencial teórico, mobilizam-se as categorias espaciais do neorregionalismo propostas por Braga (2021), as reflexões sobre espaço e sujeito desenvolvidas por Tuan (1983), Bachelard (1993) e Santos (2006), os estudos sobre memória cultural de Bosi (1994) e Assmann (2011), as discussões acerca da mercantilização do espaço urbano formuladas por Harvey (2014) e Rolnik (2015), bem como as reflexões sobre cotidiano, corpo e materialidade elaboradas por Certeau (1998) e Le Breton (2007). No primeiro capítulo, realizou-se uma discussão teórica acerca dos fundamentos e das relações entre literatura, cinema e neorregionalismo, culminando na análise da linguagem cinematográfica de Kleber Mendonça Filho e Cláudio Assis, bem como de outras obras brasileiras convergentes com a estética neorregionalista. No segundo, discutiu-se a experiência do espaço em Aquarius, que se vincula predominantemente ao interior, isto é, ao apartamento, e em Piedade, cujo exterior passa a dominar a mise-en-scène. No terceiro capítulo, destacou-se que a memória cultural expressa nos audiovisuais, por meio dos corpos, dos objetos e do cotidiano, desdobra-se em duas instâncias centrais: a permanência e o colapso, trabalhadas, respectivamente, em Aquarius e Piedade. Conclui-se que as obras, por meio de projetos estéticos distintos, constroem o espaço urbano como campo de conflito simbólico entre memória cultural e mercantilização, evidenciando que o cinema neorregionalista urbano pernambucano transforma a cidade em elemento estruturante da narrativa e em expressão das disputas contemporâneas por identidade, pertencimento e permanência.