Aproximamo-nos da obra Crônica da casa assassinada (1959), de Lúcio Cardoso, para nela nos aprofundarmos em uma abordagem que já se sobressai em seu título: a personificação do espaço. Nessa tarefa, foi percebido o quanto o espaço ficcional na obra comunicava a degradação moral por meios abstratos, nas relações pessoais; e em seus segmentos materiais, nas estruturas e corpos. Por isso, o trabalho parte da missão de cartografar os índices de decadência que se desenvolvem nos planos figurativos por meio das abordagens sociológicas, políticas, antropológicas e do imaginário e, consequentemente, interessando-se como isso foi canalizado pela forma literária, na construção estética de todos esses elementos. Assim, é possível identificar na obra de Cardoso uma intenção estética comum dos modernistas intimistas em retratar a decadência da sociedade brasileira mais cética ao passo que a modernidade se distancia da religião. No autor mineiro, especialmente, essa denúncia se concretiza no espaço, arranjando-se de forma irônica por conceber corpos e lugares feridos de modo proporcional aos pecados cometidos e da forma como foram realizados. Desse modo, as teorias de Gaston Bachelard, Michel Foucault, Henri Lefebvre fornecem apoio necessário para se entender o papel metafísico do espaço, isto é, sua realidade social e imaginária de modo a ser não contrastados, mas entendidos em harmonia com a sua construção material e estética, como nas abordagens de Osmã Lins. O espaço degradado de Lúcio Cardoso, por fim, revela inversamente a história da criação humana cristã: um jardim no qual não foi expulso o homem, mas sim Deus e, neste espaço, os homens precisam conviver com a ausência divina ao passo que purgam suas faltas.