Poderia o reconhecido e aclamado autor Kazuo Ishiguro escrever a mesma obra reiteradamente ou apenas aprimorar temáticas anteriormente abordadas em suas novas composições? A partir de uma revelação do escritor nesse sentido, a Tese a seguir tem como finalidade realizar a interpretação de seus três romances mais recentes, Não me abandone jamais (2005), O gigante enterrado (2015) e Klara e o Sol (2021), de modo que tal hipótese possa ser refutada ou aquiescida. Ainda que apresentem temáticas aparentemente diversas, seja sobre a clonagem humana, a viagem de um casal de idosos por terras fantásticas ou a amizade entre androides e humanos, as tramas compartilham temas universais da Literatura: o amor, a morte e o luto. Para mais, a mensagem de que a morte pode ser adiada ou derrotada pelo amor verdadeiro, desde que este elemento possa ser avaliado e comprovado de alguma forma, aparece como componente dos respectivos enredos. Adicional aproximação relevante entre os três livros é que o autor baseia sua escrita em personagens da outridade, ocupando posições inferiorizadas dentro de uma hierarquia socialmente estabelecida. Na condição de sujeitos sujeitados, as protagonistas estão vulneráveis a profusas adversidades e a acentuado controle de seus corpos e mentes. Como fundamentação teórica, inicialmente se apresenta a ideia do amor como arma de transformação política e o conceito de amor verdadeiro, conforme hooks (2021), e considerações de Noguera (2020) sobre o assunto. Ambos os pensadores também discutem pressupostos a respeito da morte e do luto e isso é salutar, uma vez que esses temas irrompem nos enredos como ameaça a um ideal de amor duradouro. No âmbito do estudo das personagens, são solicitados os conceitos de biopoder, necropoder e psicopoder, enquanto operadores que dão suporte para que as sociedades descritas estruturem em categorias as suas múltiplas formas de existência. Almeida (2019), Foucault (1987), Le Breton (2007) e Mbembe (2018) são cruciais para fundamentar as análises relacionadas ao domínio corporal e suas consequências, enquanto Han (2015; 2018) e Bauman (2005) auxiliam na compreensão do domínio das mentes das personagens principais. Dessa maneira, a condução da pesquisa seguiu o enfoque teórico dos estudos de Literatura comparada em conexão com outras áreas, especialmente a Filosofia e a Sociologia. Quanto à abordagem metodológica, priorizou-se um paradigma qualitativo. Espera-se que a publicação da Tese assevere que, ao trazer uma concepção de amor diversa da fantasia valorizada no ocidente, insistir na mensagem de que a morte foge de qualquer controle e elaborar personagens e enredos similares, Ishiguro compôs uma trilogia. Além de servir de aparato para se lançar um novo olhar ao amor, à morte e às diferenças mediante a gratuidade estética, o trabalho pode vir a ocupar uma lacuna no campo dos estudos literários dedicados à obra de Ishiguro, contribuindo para a expansão e incremento de sua poética.