Essa dissertação propõe analisar de que maneira se estruturavam as relações entre os diferentes agentes de cura e o processo de hegemonização da medicina científica no Piauí, durante a segunda metade do século XIX — particularmente na cidade de Amarante-PI, entre as décadas de 1870 e 1890 — destacando como o discurso médico buscou se consolidar como forma legítima de cura neste período. Em um contexto marcado pela coexistência de múltiplos saberes e práticas terapêuticas, tais como: práticos, curandeiros, parteiras e benzedores, estes agentes compartilhavam o espaço de atendimento à população, ao mesmo tempo que a medicina acadêmica buscava ampliar sua legitimidade e delimitar os sujeitos considerados aptos a exercer as artes de curar nesse período. Nesse processo, o discurso médico, sendo frequentemente um aliado dos poderes públicos, passou a reivindicar maior autoridade sobre o conhecimento das doenças e dos tratamentos, contribuindo para a deslegitimação das práticas e dos agentes supra, que não se enquadravam nos parâmetros do novo discurso de salubridade e de higienismo que havia surgido. Para compreender essas disputas, toma-se como eixo central a trajetória do prático de farmácia Manoel José Vieira, cuja atuação no interior piauiense permite analisar as relações entre legitimidade comunitária e práticas de cura especialmente em um contexto marcado pela limitada presença de profissionais diplomados e pela carência assistencial à saúde pública da província. Para tanto, foi realizado o levantamento bibliográfico de caráter historiográfico e teórico de autores como Joseanne Marinho (2018), Ana Karoline Nery (2021), Danielle Santos (2025), Maria Clélia Costa (2014), Michel Foucault (1977; 1979), Tânia Pimenta (1997) e Gabriela Sampaio (2001). As principais fontes catalogadas são referentes ao processo cível contra o licenciado Manoel Vieira, decretos e documentos institucionais da caixa de Inspetoria de Higiene Pública do Piauí, bem como materiais de fontes hemerográficas como A Imprensa, A Epoca, A Reforma, A Opinião Conservadora, O Telephone e O Propagador. Dessa maneira, pode-se compreender que a complexidade das práticas de cura no Piauí oitocentista, marcada pela coexistência, pelas disputas e pelas negociações entre diferentes saberes e agentes, cujas atuações foram fundamentais para as experiências de cuidado e tratamento da população naquele período.