Introdução: a pós-graduação stricto sensu em Enfermagem caracteriza-se por elevadas exigências acadêmicas e intensa produção científica, configurando um contexto potencialmente associado a repercussões na saúde mental e na qualidade de vida dos estudantes. Mestrandos e doutorandos desempenham papel central na produção do conhecimento, porém permanecem expostos a demandas acadêmicas intensas, prazos rigorosos, competitividade e incertezas quanto ao futuro profissional, fatores relacionados ao sofrimento psicológico e a prejuízos nos diferentes domínios da qualidade de vida. À luz do Modelo de Sistemas de Betty Neuman, tais demandas podem ser compreendidas como estressores intrapessoais, interpessoais e extrapessoais capazes de afetar o equilíbrio do sistema indivíduo, influenciando suas respostas adaptativas e estratégias de enfrentamento. Objetivo: analisar a qualidade de vida, o sofrimento psicológico, os estressores e as estratégias de enfrentamento utilizadas por estudantes de pósgraduação stricto sensu em Enfermagem de universidades federais da Região Nordeste do Brasil. Método: trata-se de um estudo analítico-descritivo do tipo transversal. A população foi composta por alunos de pós-graduação stricto sensu em Enfermagem de dez universidades federais da Região Nordeste do Brasil. Foram incluídos estudantes com vínculo ativo e que haviam cursado, no mínimo, um semestre do curso, sendo excluídos aqueles em mobilidade internacional, com curso trancado ou afastados por licença. A coleta de dados foi realizada em ambiente virtual e compreendeu a aplicação de quatro instrumentos: questionário semiestruturado para caracterização sociodemográfica e acadêmica; o World Health Organization Quality of Life Assessment Instrument (WHOQOL-bref); a Depression, Anxiety and Stress Scale (DASS-21); e a Escala Modos de Enfrentamento de Problemas (EMEP). Os dados foram analisados por meio de estatística descritiva e inferencial, utilizando os softwares SPSS® (versão 29.0) e R (versão 4.4.3), adotando-se nível de significância de 5% (p < 0,05). Os escores do WHOQOL-bref foram transformados em escala de 0 a 100, utilizando ponto de corte de 70 para classificação da qualidade de vida. A normalidade das variáveis foi avaliada pelo teste de Kolmogorov–Smirnov. As associações entre variáveis categóricas foram examinadas pelos testes Qui-quadrado de Pearson ou Exato de Fisher, com estimativa de Odds Ratio e intervalos de confiança de 95%. A associação entre os domínios da qualidade de vida e os sintomas de depressão, ansiedade e estresse foi analisada por regressão linear robusta e correlação de Spearman. Modelos de regressão logística bivariada e multivariada foram empregados para os desfechos psicológicos. Os estressores foram categorizados em intrapessoais, interpessoais e extrapessoais, e as estratégias de enfrentamento analisadas por estatística descritiva, teste t de Student e regressão linear múltipla. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Piauí, e todos os participantes concordaram em participar mediante aceite eletrônico do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Resultados: os resultados do estudo foram apresentados em três manuscritos, que evidenciam os principais achados da pesquisa. No primeiro manuscrito intitulado: “Fatores associados à qualidade de vida dos estudantes de pós-graduação stricto sensu em Enfermagem”, identificou-se que a qualidade de vida dos estudantes de pós-graduação stricto sensu em Enfermagem apresentou associação com fatores socioeconômicos, acadêmicos e psicológicos, destacando-se a renda familiar (p<0,001), o conceito do programa de pós-graduação (p=0,005), a satisfação com o curso (p=0,002), conciliar a pós-graduação com a vida pessoal (p<0,001). Aspectos subjetivos relacionados ao bem-estar psicológico, como aproveitar a vida, perceber sentido na vida, conseguir se concentrar, aceitar a aparência física, ter satisfação consigo mesmo e a maior frequência de sentimentos negativos também se associaram significativamente à qualidade de vida (p<0,001). No segundo manuscrito intitulado: “Sofrimento psicológico e qualidade de vida de mestrandos e doutorandos em Enfermagem da Região Nordeste”, evidenciou-se elevada ocorrência de sofrimento psicológico entre os estudantes, observando-se, na análise multivariada, que a depressão se associou aos domínios psicológico, relações sociais e meio ambiente da qualidade de vida; o estresse, aos domínios físico, geral e relações sociais, além de maior ocorrência entre estudantes mais jovens; e a ansiedade manteve associação com os domínios físico e geral. No terceiro manuscrito intitulado: “Estressores e estratégias de enfrentamento em pós-graduandos em Enfermagem à luz de Betty Neuman”, identificou-se que os estressores mais frequentemente relatados concentraram-se no âmbito intrapessoal, relacionados à internalização das exigências acadêmicas e à organização do percurso formativo, como a construção do projeto, dissertação ou tese e a conciliação entre estudos, trabalho e vida pessoal. Entre os estressores interpessoais, destacaram-se a sobrecarga de atividades acadêmicas e a insatisfação com orientadores e professores. Entre os estressores extrapessoais, sobressaíram-se as exigências relacionadas às publicações científicas e às limitações financeiras ou à ausência de bolsa. Paralelamente, observou-se predomínio do uso de estratégias de enfrentamento focalizadas no problema, indicando uma postura ativa dos estudantes frente às situações estressoras. Conclusão: evidenciou-se associações entre a vivência na pós-graduação stricto sensu em Enfermagem com a qualidade de vida, o sofrimento psicológico e a presença de estressores de natureza intrapessoal, interpessoal e extrapessoal. A frequência de sintomas psicológicos e o predomínio de estratégias de enfrentamento focalizadas no problema reforçam a importância de refletir sobre ações institucionais de promoção da saúde, apoio psicossocial e melhoria das condições formativas na pós-graduação em Enfermagem.